Este blog foi criado com o intuito de expor publicamente situações de agressão que vem sendo cada vez mais frequentes dentro de espaços supostamente libertários, como a cena punk/hardcore (e derivados/similares etc) e movimentos politizados. Por falta de espaço para dialogar e expor essas situações que acabam sendo esquecidas com o tempo e abrindo espaço novamente para estes agressores circularem livremente e repetirem comportamentos agressivos, resolvemos registrar aqui algumas destas situações que ficamos sabendo ao conversar entre nós – o que nos mostra que não se tratam de casos isolados, e que estes agressores acabam quase sempre tendo mais espaço que as vítimas. Todas as cartas aqui presentes se apoiam mutuamente. Este é um lugar aberto e que pretende ser usado para que outras situações como estas sejam expostas. Entre em contato pelo e-mail: emailnaopassarao@riseup.net

DENÚNCIA 01 – BRASÍLIA, DISTRITO FEDERAL

Nós entendemos a denúncia pública como um grito contra a autoridade masculinista e como uma maneira de não permitir que agressores sejam protegidos pelo rótulo de libertários, nem que a galera que protege estes agressores se esconda atrás desse rótulo ou não seja questionada e exposta em relação a isso. Que fique claro que se posicionar de maneira “neutra” e proteger o agressor em nome de laços pessoais é só reforçar a relação de opressão que destrói um milhão de coisas ao nosso redor.

No dia 7 de abril de 2013 esse texto foi postado no facebook:

“dia 31 de março, dia do 1º queer fest Brasília, começou sendo um dia maravilhoso ❤ um dia que era pra marcar bem forte a união de várias minas nessa brasília, um dia que era mais pra gente celebrar essa união, se divertir juntas de um jeito muito significante pra mim! e foi, não podia ser melhor estar do lado das minhas amigas e várias outras meninas comemorando esses laços fortalecidos com tanta babaquice rolando nisso que vocês chamam de cena.

se o dia tivesse acabado aí tudo bem.. mas o queer fest era sobre o show do tpjs, uma banda que eu nem preciso ficar falando sobre aqui. e do começo até o fim desse show o meu espaço foi cerceado. porque nos “moshes da vida” todo mundo é empurradx, se machuca sem querer, tem toda uma história de contato físico e não sei o que, né? foda-se, isso aqui não é sobre violência na roda/mosh/pit/oquevocêquiser, isso aqui é sobre uma única pessoa promovendo violência em um espaço com uma única intenção.
até antes do show começar o recado já tinha sido dado em vários empurrões e indiretinhas. durante o show inteiro era incrível como tudo que acontecia na roda culminava do meu lado, até pq eu estive sempre nos cantos do show, dos dois lados. até que eu sai de lá com um roxo na cara. e se o roxo ficou no meu rosto é porque eu tava de frente, né? eu vi o que aconteceu, não foi uma suposição. eu fui agredida pelo meu ex companheiro (sim, o lagarto), que até o momento de sucesso passou por várias outras tentativas. e até eu que tava ali sentindo todas essas tentativas e ouvindo várias indiretas, fiquei extremamente surpresa com o sucesso da missão!
eu to expondo isso aqui pq eu passei uma semana sem facebook, depois desse episódio ridículo e ainda fui cobrada. eu fui agredida, sai com um roxo no rosto e tenho que ficar me provando pra vocês? é sério isso?
eu não vou ficar aqui relatando um histórico de babaquice que existe, não só comigo, pq não é necessário. isso aqui não é sobre um caso específico, é sobre as pessoas que a gente se relaciona nesse espaço que a gente chama de seguro e sobre a gente realmente manter esses espaços seguros.

e se você acha de boa, acha que eu exagero, acha que eu sou louca, feminazi e etc. massa! poupa o meu tempo e o seu e me exclui aí do seu facebook e da sua vida. esse é o momento em que eu preciso ter certeza de estar segura e entre amigxs, você não vai me fazer falta, muito menos eu pra você. e se você nem sabe o que pensar sobre isso, lê de novo umas 52 vezes e desce desse muro.”

Vamos desenhar pra quem não entende.

MAS TUDO ISSO POR CAUSA DE UM MOSH?

Sim, por causa de um mosh. Além dos mil outros motivos que existem pra não ser um lugar onde as pessoas se machucam, esse mosh/pit/roda/o-que-você-quiser faz parte de um contexto específico: um Queer Fest organizado por zero pessoas queer, que não tiveram sensibilidade para uma abertura/conversa/debate/discussão sobre o assunto com as pessoas que tentaram se posicionar, colaborar e participar do evento, onde a organização incluía um agressor e achava que colocar uma travesti montada no evento ia validar a proposta suficientemente. Todas as pessoas que questionaram o fato do evento se promover através do nome “queer” sem se quer problematizar a questão, foram silenciadas através dos mecanismos graciosos do Facebook. Por isso e por algumas outras situações acontecendo na cidade, uma banda de minas, com letras bem claras sobre feminismo e afins, aceitou o convite pra tocar no role e chamou outras minas dispostas a fazer uma intervenção, incluindo a vítima da agressão. Já é bizarro que minas tenham que intervir na programação de um role queer para que elas tenham voz. Existe a possibilidade de um role queer apolítico? Misógino? Pois é.
Nós criamos o nosso espaço, nos fizemos presentes do começo ao fim e não foi suficiente. No show do Teu Pai Já Sabe, banda de Curitiba headliner da noite, todas fomos obrigadas a assistir uma amiga ser agredida pelo ex companheiro que estava muito incomodado com esse espaço tomado por ela e por nós.

MAS EU TAVA LÁ E NÃO VI ISSO!

Uou, então você tava lá e acompanhou os movimentos do agressor e da vítima durante o show da banda que veio de fora? Você também tava preocupadx com as indiretas gritadas pelo agressor que todo mundo pôde ouvir antes, durante e depois do show?

E você que acha esse menino é um amor de pessoa e vai vir dizer que ele nunca nem te tratou mal nem foi grosso com você? Só pra você, a gente vai ilustrar aqui alguns momentos do show:

Reparem que o cara de boné preto com a logo roxa da Cripta está sempre em cima e atrás da mesma pessoa, independente do momento do show.

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

Olha que engraçado, um show em um lugar relativamente grande, onde duas pessoas que não se dão bem podem ficar distantes sem problema. A não ser que uma delas não queira… as fotos mostram claramente uma insistência. Porque não sabemos se com vocês também é assim, mas quando você tá de costas geralmente não dá para escolher quem assiste o show atrás de você. Mas quando você tá de frente você escolhe com facilidade atrás de quem você vai ficar.

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

Engraçado também que independente do momento do show (e dá pra perceber isso pelo vocalista vestido no início, e de cueca no final do show) quando ela não está desse lado, ele também não aparece.

31 de Março, 2013 - Dança da Vingança, ¿Que Pasa Cabrón?, R

A agressão ocorreu durante o show do Teu Pai Já Sabe, a vítima não teve reação nenhuma e saiu de lá. Depois do fim do show e as caronas todas do lado de fora, a vítima só foi pra casa. Mas quem enxerga conseguiu ver no dia, na hora, AO VIVO, SEM MONTAGEM, o rosto inchado, vermelho, claramente machucado.

MAS AH, ESSA GALERA SE DIZ MUITO PUNK! FAZ ESSE DISCURSO AÍ E DEPOIS VAI PEDIR AJUDA DO ESTADO!

Imagina que você manteve um relacionamento por mais de 2 anos com uma pessoa que praticamente morava na sua casa, conhecia toda a sua rotina, tinha acesso livre ao seu trabalho, à sua faculdade, sabia os seu horários, o mercado que você vai, a rotina da sua família, todos os porteiros do seu prédio, todos os caminhos que você faz e deixa de fazer, que depois de um término passou uma madrugada pintando numa avenida inteira embaixo da sua janela a frase “volta pra mim”, dentre várias outras coisas. E aí essa pessoa resolve acertar a sua cara no meio de um monte de gente. De boa, né? NÃO! Ainda é preciso dizer que não é normal você não se sentir segura dentro da sua própria casa. E nesse caso, uma medida protetiva resolve sim esse problema. Uma medida protetiva que foi aceita em 24h porque tinha testemunhas e que durou 5 meses mesmo depois da defesa do agressor.
Depois que x juizx achou que a medida não era mais necessária foi proposto foi abrir um processo criminal contra o agressor. Pra que pode servir um processo criminal? Pra ganhar uma indenização? Pra manter o agressor preso? Pra manter o agressor pagando cesta básica? Pra continuar um desgaste infinito? Nós achávamos que era desnecessário ter que explicar isso, mas por incrível que pareça esses não eram os interesses da vítima. Mais incrível ainda é acharem absurdo uma mulher entrar com uma medida protetiva através da Lei Maria da Penha SÓ POR QUERER PROTEÇÃO! Absurdo, né? Essa coisa de querer se sentir segura não é pra mulher.
Como o processo não era o interesse da vítima, foi feito um acordo onde o agressor assina que vai deixar a vitima em paz. Ah tá, também tem gente que não sabe o que é deixar em paz – é não incomodar em âmbito nenhum, de post na internet à entrar na rodinha que a mina tá pra marcar território. E as duas coisas aconteceram.

Então era pra ter fim, mas uma pessoa que acha que um bom jeito de descarregar a raiva é acertar o rosto dxs outrxs não fica satisfeito se não puder gritar que tem razão e saiu por cima. E aí o agressor contente que não foi processado, resolve processar a vítima por danos morais e pedir uma indenização de mais de 13 mil reais. Afinal, ele foi jubilado da faculdade antes de tudo isso acontecer, mas por causa da medida protetiva não conseguiu se formar. As pessoas já começavam a se afastar dele antes disso tudo acontecer, mas ele perdeu xs amigxs porque a medida protetiva trancava ele em casa. Já tinha tentado fazer terapia pra controlar a raiva algumas vezes, mas por causa da medida protetiva foi mandado pra psicóloga. Ai Satan, a vida dele era muito mais difícil que a vida dela que teve que lidar com um série de outras coisas causadas por uma série de opressões muito mais que justificadas por bandeiras libertárias, um relacionamento aberto pra um só dos lados, um silêncio ensurdecedor de quem sempre foi calada, agressões físicas (SIM, plural) e psicológicas, além de qualquer outra atitude tomada em momentos de raiva justificadas com um “você sabe que eu sou assim, era só raiva, já passou”.

Esses exemplos são situações presenciadas por nós. Nós somos amigxs que cansadxs de ver esse assunto ecoar resolvemos fazer esta denúncia didática e desenhada. Porque nós convivemos com Roberto Lagarto e também vimos ele tomar o nosso espaço de fala, levantar bandeiras quando conveniente e justificar reações agressivas depois de passar por cima da gente. Essas não eram coisas que aconteciam só com as companheiras dele.
A presença dele nos incomoda, assim como nos incomoda ver a vítima não ter mais forças pra falar sobre isso enquanto o agressor diz que foi inocentado no processo da Lei Maria da Penha porque a vitima não quis abrir o processo criminal. Ah sim, a vítima não quer seu dinheiro e isso te torna inocente. A medida protetiva durou todo esse tempo por desaviso da justiça. E você quer o dinheiro (mais de 13 mil reais) dela além de todo o mal que você já causou, logo ela é culpada. Ei Lagarto, deve ser por isso que não deu pra você se formar em Serviço Social.

O processo contra a vítima por danos morais ainda está vigente por uma treta dx juizx que presidiu a audiência com x juizx que era responsável pela decisão e o processo foi mandado para o Ministério Público. Ou seja, vai aí mais uns dois anos pra decidir isso. E sem decisão, Roberto Lagarto grita por aí ser declarado inocente enquanto a vítima é processada por danos morais.

Bem bonito falar de agressores que a gente não conhece e episódios distantes da nossa realidade, mas quando é bem aqui do nosso lado não é confortável, né?
Aliás, confortável é fechar os olhos pra situações grotescas e continuar sua vida como se nada tivesse acontecido. não ter que deixar de fazer alguma coisa, não ter que abrir mão de nada, não perder um show massa porque a banda de um cara que nem mora mais na cidade vai tocar.

Ah sim, o agressor saiu de Brasília e mudou pra Curitiba onde ninguém chama ele de agressor e ele não precisa ficar se justificando. Curitiba, aqui a gente consegue contar uns 3 agressores que saíram da própria cidade pra morar lá. Você que mora em Curitiba: conheça bem os novos moradores.

Aqui no Distrito Federal, onde a agressão ocorreu durante o “Queer” Fest, evento este que contava com a participação da banda <a ¿Que Pasa Cabron? (onde Roberto Lagarto canta), vai ter mais um rolê LEGAL em Outubro. No dia 04 de Outubro de 2014, sábado, em Brazlândia – DF, as bandas Bandanos (SP), Disforme (DF), Coerência (GO), Ingrena (DF) e Entre Os Dentes (GO) vão dividir o palco com a banda ¿Que Pasa Cabron?, que resolveu fazer um show de reunião na ocasião, e nenhuma das bandas citadas, pareceu se importar com o fato de dividir o palco com esse cara. Boa parte das pessoas que estão divulgando e apoiando este evento só conhecem a versão do agressor, então, através desta carta, estamos nos posicionando para que vocês se posicionem também e decidam se é essa a cena que estamos construindo, uma onde é mais importante que tenha alguém “fazendo o corre do rolê” pros shows não pararem de acontecer independente de TUDO e TODXS, do que se importar com as pessoas que constituem a cena. A cena que está sendo construída passa por cima das pessoas, chama de doida e de estraga-prazeres aquelas que gritam por espaço, espaço nos shows, espaço de fala – mas é claro, nunca deixou de dizer que “somos todxs iguais” e que nela devíamos todos nos sentir bem e coexistirmos pacificamente. Como?
*** Logo após a divulgação desse relato, a organização do show que aconteceu no dia 04/10 em Brazlandia – DF abriu espaço para dialogar sobre a presença da banda ¿Que Pasa Cabron?, entendendo nossas colocações e decidindo tirá-la do line up. A banda Bandanos de São Paulo também entrou em contato demonstrando apoio e abrindo espaço para que pudéssemos nos manifestar no evento. Agradecemos Márcio e Henrique (Brazlândia Undeground) que assumiram a responsabilidade de ter escolhido essa banda e fizeram a escolha de tirá-la do show. Agradecemos a sensibilidade, e queremos dizer que a galera que movimenta Brazlândia tem nosso suporte. ***

Aqui no DF tivemos recentemente mais uma denuncia de estupro incluindo pessoas presentes nesses espaços políticos. O agressor faz ou fez parte de movimentos sociais como o Movimento Passe Livre e a Marcha da Maconha e tem várias outras denuncias de abusos recorrentes nas costas– e no entanto continua habitando todos estes espaços por aqui sem maiores problemas. Por que esse cara ainda tem espaço? Os movimentos sociais em Brasília são apolíticos?

Estes e vários outros agressores ainda tem espaço na cidade, nos roles, nos movimentos sociais porque pessoas como vocês, que preferem não se posicionar, não saber, dão esse espaço pra eles. E porque pessoas como nós, cansadas de tentar e ser silenciadas, acabam não tendo fôlego pra ficar implorando por apoio. É nesse espaço que esses caras se fazem. Assim como o Lagarto tem espaço pra banda dele fazer um show de reunião porque vocês não se importam com como ele se relaciona com suas companheiras, afinal, não tem nada a ver com a vida de vocês, né. E porque vocês sempre viram ele com as namoradas no role e sempre acharam ele um exemplo de namorado. Porque vocês lembram quando a vítima da agressão terminou com ele e ele sofria tanto que não comia. Porque ele nunca tratou vocês mal e aquela vez que ele passou um pouquinho dos limites era um assunto muito sério, ele só é agressivo com coisas que merecem esse comportamento, aliás ele é agressivo pra defender os valores dele e levantar bandeiras libertárias, isso nem é agressividade, é o jeito dele mesmo.

E essa mina que vocês nunca viram na vida acusando ele assim do nada? DO NADA? Não da pra levar a sério, né.

Então lê de novo esse carta, olha bem direitinho as fotos. Não foi o suficiente? Então lê o print onde ele mesmo se diz agressor e siga os conselhos que ele dá.
Aí depois você da uma procurada nas ultimas declarações que ele deu por aí dizendo que NUNCA FEZ E NUNCA FARIA uma coisa dessas. Escolhe a versão de Lagarto mais conveniente pra você.

quebrando o silêncio 2

A cada duas horas uma mulher é morta no Brasil, em 81% dos casos o agressor tem ou teve vínculo afetivo com a vítima, nas pesquisas de 2013 54% dessas agressões eram sobre violência física e 30% eram sobre violência psicológica. Continuem nos chamando de loucas.

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DENÚNCIA 02 – Belo Horizonte, Minas Gerais

Faço uso deste documento para repudiar atos de machismo por parte de Felipe Gomes (colaborador do festival Exhale The Sound e organizador de demais eventos punk/hardcore), assim como posturas de concordância de outros homens e pedir solidariedade às mulheres e homens que colaboram com a construção de espaços de fato livres, contracultuais e contra-hegemônicos.

Felipe Gomes e eu nos conhecemos em 2008, 2009, quando tivemos um curto período de relação não-sexual. Nos distanciamos e no ano passado, se mostrando disposto a desconstruir machismo e outras opressões, voltamos a ter contato ainda no primeiro semestre. Depois de algumas semanas, Felipe, também conhecido como Bolinho, se declarou apaixonado por mim. Eu afirmei não sentir o mesmo e que até tinha interesse me relacionar esporadicamente com ele, mas que naquele momento eu não corresponderia aos seus sentimentos e que, no entanto, poderíamos ter uma relação de amizade. Chegamos a nos beijar uma vez durante esse tempo e sugeri que nos relacionássemos desta forma, mas que entenderia se ele optasse por se afastar.   Felipe Gomes, que é do tipo que não circula entre movimentos sociais, mas se envolve na organização de eventos de cunho alternativo, especificamente no meio punk/hardcore de Belo Horizonte, se afastou e tivemos contatos esporádicos.

Durante este afastamento, em uma das ocupações da Câmara de Belo Horizonte, entre julho e agosto de 2013, fui vítima de estupro (que segundo a Lei Ordinária Federal nº 12.015, de 2009, que alterou o Código Penal Brasileiro, o crime de estupro não se refere somente à penetração, mas a qualquer ato de ‘conjunção carnal ou outro ato libidinoso com alguém, mediante fraude ou outro meio que impeça ou dificulte a livre manifestação de vontade da vítima) por parte de um militante. O caso foi devidamente levado à 1ª Delegacia Especializada de Atendimento a Mulher, ao Idoso e ao Portador de Deficiência/Demid. Na busca por descredibilizar os movimentos sociais, o acontecido foi veiculado na imprensa corporativa comum. Tive dias afastada do trabalho, fui abusivamente procurada (assim como minhas amigas e amigos mais próximos) por diversos jornalistas (virtual e pessoalmente), abordada por colegas de faculdade, professoras e professores, meu envolvimento político foi comprometido, da mesma forma que minha saúde e outras atividades. À época, Felipe Gomes me contatou para que eu relatasse o ocorrido. Eu recusei, disse que não estava me sentindo bem para falar sobre o caso mas que em outra oportunidade, quando já estivesse superado todo o processo, faria isso. Durante as investigações e instauração de inquérito sobre o crime – que hoje está arquivado – meu agressor declarava para minhas amigas e meus amigos que havia sido procurado por um “ex-namorado” meu que havia aceitado depor contra mim, com alegações de que sofro de loucura e que “gosto de aparecer”. Procurei, na época, os homens e mulheres com quem já tive relações declaradas como “namoro” e todas e todos negavam qualquer relação com o acusado. No dia 5 de setembro fui procurada mais um vez, através do Facebook, por Felipe Gomes que dizia ter sido procurado pela Delegada Erika, responsável pelas investigações. No momento eu ainda conversava também com 3 amigos, que na época me apoiaram e foram absolutamente solidários comigo e que quando, por insight, tive ideia de que o “ex-namorado” se tratava do Felipe e me desestabilizei emocionalmente, me orientaram a ter calma, mostrar tranquilidade e me insinuaram o que digitar para o Bolinho, para que não houvesse suspeita de que eu soubesse do seu ato até que ele admitisse tê-lo feito. Conversava também com um conhecido que Felipe e eu tínhamos em comum, para quem relatei todo o conteúdo. Travamos o seguinte diálogo:

*
18:42
Felipe Gomes
ow o lance do seu caso ia na camera rendeu ate pra mim
*
18:43
Jssc Lmd
que?
*
18:43
Felipe Gomes
hj uma advogada me ligou do nada
fiquei bolado na hr
pensando o que eu tinha feito de errado pra delegada da delegacia de mulher ta me ligando
advogada nao delegada quis dizer
me ligou marcando pra mim ir la sexta-feira prestar alguns depoimentos sobre a sua pessoa
*
18:45
Jssc Lmd
esta sexta?
*
18:45
Felipe Gomes
sim
15 hrs
*
18:45
Jssc Lmd
que estranho
pq ela arquivou o caso já
mas enfim, espero que seja por uma finalidade boa
*
18:46
Felipe Gomes
pelo que parece e o cara que ta entrando contra os envolvildos
*
18:46
Jssc Lmd
o que você tem a ver com isso, eu não sei
*
18:47
Felipe Gomes
eu que pergunto
to correndo de problemas
*
18:47
Jssc Lmd
te digo que não tenho nada a ver com isso aí não. levei duas testemunhas e nenhuma delas tem nada a ver com você
*
18:47
Felipe Gomes
quero nem e saber
vou passar e longe de delegacia da mulher
*
18:47
Jssc Lmd
aí é você quem tem que decidir
*
18:48
Felipe Gomes
eu me comporto pra nao ter problemas, vou envolver em problemas dos outros ta por fora
vou la fazer o que ? eu to correndo de locuras !!!!
ela ainda falou toda nervosa e grossa comigo no tel nao sei nem como arrumou meu telefone !!!
*
18:49
Jssc Lmd
você me autoriza a colar essa nossa conversa pra minha advogada?
cubro seu nome
e sua foto
*
18:49
Felipe Gomes
sai fora
nao me envolve nessa merda nao
tenho nada a ver com isso !
eu ja ouvi sem querer 500.000 versão dessa historia mas nao ouvi a sua entao prefiro nao tirar conclusao de nada noa envolver e o ue for
*
18:52
Jssc Lmd
conclusão?
te digo que fui violentada e você não conclui nada?
só falta me dizer que acredita na culpabilização da vítima
na boa felipe
*
18:53
Felipe Gomes
o que ele escreveu fazia sentido
*
18:53
Jssc Lmd
?????????????????????
*
18:54
Felipe Gomes
nao estou falando que rolou que nao rolou entende
*
18:59
Jssc Lmd
como você teve acesso ao que ele escreveu?
foi você quem procurou o cara?
*
18:59
Felipe Gomes
nao e questao de procurar eu nao to procurando nada
mto pelo contrario to e correndo
*
19:00
Jssc Lmd
eu fiz uma pergunta: você o procurou? como você sabe que ele tá entrando contra os envolvidos? como teve acesso a versão dele?
*
19:00
Felipe Gomes
querer ser imparcial a determinado assunto e esta errado (SIM, FELIPE! SER IMPARCIAL NUMA SITUAÇÃO ABUSIVA É ERRADO SIM!)
*
19:00
Jssc Lmd
para de ficar na defensiva. você pode me responder, por favor?
*
19:01
Felipe Gomes
eu li no perfil dele
defensiva de que ?
*
19:01
Jssc Lmd
eu tinha pessoas acompanhando o perfil dele e ele nunca postou nada na própria timeline
*
19:01
Felipe Gomes
entao ta bom
*
19:02
Jssc Lmd
como você sabia quem era ele?
*
19:03
Felipe Gomes
na pagina da assembleia postaram o perfil dele (A ASSEMBLEIA CITADA AQUI SE TRATA DA APH,  UM ESPAÇO ABERTO , HORIZONTAL E AUTÔNOMO QUE CONVERGE LUTAS, MOVIMENTOS E PESSOAS EM BELO HORIZONTE)
*
19:03
Jssc Lmd
e desde quando você aocmpanha o perfil da assembleia, velho?
*
19:04
Felipe Gomes
devo te da satisfação do que acompanho ou nao ?
*
19:04
Jssc Lmd
o que ele escreveu que faz sentido?
você disse que a versão dele faz sentido. em que parte?
*
19:04
Felipe Gomes
guardo pra mim
*
19:04
Jssc Lmd
cola aí pra mim o que você viu no perfil dele
*
19:04
Felipe Gomes
cada um tirou a conclusao que queria tirar do fato
*
19:05
Jssc Lmd
cola pra mim o que você viu no perfil dele, por favor?
*
19:05
Felipe Gomes
eu tenho a minha
ta de boa, so me deixa fora pro favor !!!!
*
19:07
Jssc Lmd
cola pra mim o que você viu no perfil dele? você o conhece?
*
19:07
Felipe Gomes
eu nao
conheço ele tanto quanto conheço um motor de avião
*
19:09
Jssc Lmd
é mentira
*
19:09
Felipe Gomes
entao ta bom !
*
19:15
Jssc Lmd
eu só queria saber que parte da versão dele fez sentido pra você
*
19:15
Felipe Gomes
de a sua
?
*
19:18
Jssc Lmd
minha versâo já foi postada pelo perfil da assembleia
se você acompanha, voce deve ter visto
*
19:26
Felipe Gomes
unica coisa que fiquei pensando comigo uma pessoa que comete um crime nunca mais volta a cena do crime
*
19:27
Jssc Lmd
não entendi
*
19:31
Felipe Gomes
uai nao boto a mao no fogo por ninguem
*
19:34
Jssc Lmd
de onde diabos a delegada tirou seu telefone?
*
19:35
Felipe Gomes
espero que fique so por isso mesmo
eu nao fiz nada de errado
*
19:55
Jssc Lmd
e tô curiosa também em como você teve acesso a versão dele…
nem a delegada teve acesso a versão dele pela internet
e você teve
*
19:56
Felipe Gomes
tenho a manha
*
19:57
Jssc Lmd
muita
você é ninja
*
19:58
Jssc Lmd
vou fingir que você não procurou o cara
*
19:58
Felipe Gomes
kkkkkkkkkkkk
vou fingir q esse asunto nao rolou
*
19:59
Jssc Lmd
por que ele ia dizer que você procurou ele?
por que ele ia inventar uma mentira sobre voce, de graça?
sendo que vc nem conhece ele
*
19:59
Felipe Gomes
an ?
*
19:59
Jssc Lmd
e se vc não conhece ele, como ele te conhece e disse que foi procurado por você?
*
19:59
Felipe Gomes
an ?
*
20:00
Jssc Lmd
sim, o F M* disse que você o procurou
ele inventou uma mentira justo sobre você, então, que nem conhece ele?
*
20:00
Felipe Gomes
an ?
*
20:01
Jssc Lmd
por que será que ele fez isso?
será que ele inventou um nome e esse nome era justo o seu?
*
20:02
Felipe Gomes
deve ser ne
acho justo
*
20:04
Jssc Lmd
e como você teve acesso ao que nem a delegada teve, a não ser quando ele foi a delegacia?
*
20:04
Felipe Gomes
vc ja falou eu sou ninja
vc ta mto fragante
*
20:11
Jssc Lmd
enfim, foi bacana você ter procurado o cara. dois felipes se entendem
*
20:12
Felipe Gomes
e meu chara
*
20:21
Jssc Lmd
ninguém tá acreditando que você fez isso
testemunha de F M…

No dia seguinte, pela manhã, compareci a Delegacia para ter acesso ao depoimento do meu abusador e realmente, Felipe Gomes o havia apoiado em seu depoimento e aceitado ter sue nome citado como testemunha. Falsa testemunha de um acusado de estupro. A noite, retomei a conversa apenas para que ele soubesse que eu havia confirmado tal fato.

bol1

bol2

*
18:16
Jssc Lmd
vai negar que você conhece o cara? que você o procurou? que você se reconhece como testemunha dele?
*
18:21
Felipe Gomes
conheço demais, sou testemunha dele e da dilma, fui ate a casa dele
*
18:22
Jssc Lmd
o número que ele informou no depoimento é exatamente o seu
você forneceu?
*
18:24
Felipe Gomes
o que isso importa ?
quem e vitima eu nao sei testemunha e quem vai a algum lugar presta algum depoimento
uma pessoa pra prejudicar alguem tem que ser mto loca. so isso que digo !!!
*
18:36
eu so quis saber o que aconteceu….
*
18:46
Jssc Lmd
MEU AGRESSOR tirou seu telefone de onde? por que ele te arrolou como testemunha? se vocês não se conhecem, como você disse, como ele tem seu telefone e o informou no depoimento dele?
*
18:46
Felipe Gomes
eu conversei com ele apenas isso !!!
mas o que importa isso??
ate pq nao sei o que ocorreu
eu queria saber o que tinha rolado
e ele me perguntou se poderia me ligar passei meu numero
*

* FM é abreviação do nome do abusador acusado de estupro

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Lidar com esse tipo de situação, tanto a de abuso, como a de complacência para com ele, foi óbviamente difícil. Além de temer e me constranger com possíveis reações de amigas, amigos e parentes, ou mesmo minha insegurança em lidar com a Polícia/fazer um B.O., há o desconforto de me serem cobradas, a todo momento, explicações e os mais detalhados relatos, uma vez que vivemos numa esfera que debocha da vítima, colocando sempre em cheque o quão real ou verdadeiro é seu discurso. Como se não fosse suficiente, foi com muita ajuda e muito estômago que travei essa conversa com um homem que, por não saber lidar com rejeição, por não fazer ideia do que é ser mulher em uma junta patriarcal, se tornou a testemunha de um estuprador. Felipe basicamente mostrou, com suas palavras, que era preciso a confirmação da minha agressão por meio de provas. Felipe mostrou, por meio de atos, que a vontade da mulher não é considerável e que rejeição afetiva não fica impune. Felipe Gomes me cobrou explicações sobre minha agressão. Felipe Gomes procurou o homem que me violentou para ouvi-lo, para colocar à prova minha saúde mental na tentativa de fragilizar meus discursos, me silenciar e neutralizar um caso de estupro. Não suficiente, Felipe me procurou para abalar ainda mais meu psicológico, se fazer de vítima de um engano, me fez reviver sensações de desamparo e descaso, usou de ironias para voltar a palavra à uma pessoa recém-saída de uma situação de violência. Aquele nunca foi o momento de Felipe Gomes, tendo se aproximado de um criminoso a ponto de ter seu nome em páginas de inquérito (o que configura outro crime, o de falso testemunho, já que ele não estava presente quando o crime ocorreu), me procurado para me desestabilizar. Aquele era o momento de Felipe Gomes ter praticado o que havia dito sobre desconstruir hegemonia masculina, branca, hétero, cisgênero e classe média. Felipe Gomes foi complacente com mais um caso que exemplifica toda uma sociedade que odeia, domina, castiga, cospe, tortura e oprime mulheres.  Era um momento de tentativa de reparação, de tentativa de conforto, de sororidade por parte das mulheres e solidariedade por parte de homens.  É importantíssimo evidenciar que Felipe Gomes age e se auto-proclamava envolvido com o punk/hardcore e que podemos usar isso para nos atentarmos sobre como as assimilações podem velar opressão, silenciamento e até agressões propriamente ditas.

Não apoiar uma mulher agredida é agredi-la duas vezes. Logo após eu ter exposto, de modo gradual e individual a agressão secundária de Felipe Gomes, muitas foram as posições de suavização da gravidade do seu ato, negando uma opressão histórica que sempre conservou o conforto masculino. Dentre esses homens, também havia quem quisesse moldar meu discurso, dizendo que era preciso diferenciar abuso de agressão e de estupro. Dentre esses homens, havia também quem perguntasse detalhes sobre minha agressão, como se esse fosse o pilar do meu repúdio pela postura de Felipe Gomes. Me surpreendeu como uma violência com alguém que se identifica com o punk/hardcore não concebe discussões dentro do tal punk/hardcore. Não semeia soluções nem desperta apoio. Será que a vítima é quem tem que pegar na mão dos homens (e algumas mulheres, sem saber que também estão reproduzindo discursos carregados de machismo héterocapitalista cisnormativo) e ensinar que a palavra da vítima deve ser lida como veracidade se nosso objetivo é construir espaços contra-comuns?

Em novembro passado aconteceu a primeira edição do Festival Exhale The Sound, no qual Felipe Gomes é um dos colaboradores. Compareci na tentativa de não me isolar de eventos em que eu gostaria de estar pela presença de Felipe. Tinha um companheiro que, na época, me auxiliou a estar menos aflita, o que durou por pouco tempo já que, na falta de companhias empoderadoras, dificilmente eu me sentia segura. Foi uma experiência que, ao fim, foi ruim; o que me fez, de vez, desistir de estar em espaços que ele estivesse. No último mês de abril, organizamos um show no “Espaço Espanca!” com as bandas Death Trip, Ameaça Cigana, Postal e Ereção de Elefante (sendo que somente as duas primeiras abriram espaço em suas apresentações para falar de agressão machista e responsabilização do agressor e seus apoiadores. A banda Ereção de Elefante chegou a se apresentar com vestimentas femininas, mas não se pronunciou sobre o assunto). Antes que o show acontecesse, Felipe Gomes foi advertido que não seria bem-vindo naquele espaço e que sua presença causava desconforto em mulheres (além de mim, outras mulheres que quando souberam quem era o Felipe e suas posturas se sentiram da mesma forma). Mesmo sabendo que era mal-vindo e que sua presença levava insegurança à uma sobrevivente de ataque sexual, ele compareceu;  talvez numa tentativa de coerção e mostrar que circula com total bem-estar e tranquilidade mesmo se posicionando de forma tão problemática. Naquela noite me senti perseguida e muito insegura. É como eu me sinto transitando em quaisquer espaços de atividades ligadas ao punk/hardcore em Belo Horizonte, porque são espaços em que Felipe também transita sem sequer imaginar ou ser advertido sobre suas responsabilidades e consequências que sua agressão sexista indireta provoca em mim e em outras mulheres que gostariam, mas sequer se aproximam das mesmas atividades, por não querer dividir ambientes com homens que não se dispõem a rever privilégios ou onde o machismo não é pautado de forma alguma. Em outubro, uma segunda edição do Exhale The Sound está agendada. Procurei o idealizador principal para conversar e tentar problematizar o postura de Felipe Gomes e como o evento poderia ser mais inclusivo. Ele prometeu procurar Felipe Gomes para ouvi-lo e depois me daria um parecer sobre possíveis encaminhamentos. Eu nunca tive retorno dele ou de qualquer outro colaborador e mesmo sendo cobrado por mim, o principal organizador do evento se calou, ignorou as demandas que participantes gostariam que fossem ouvidas. Medida essa que torna os espaços exclusivos, higienistas e isolador para várias mulheres de vários estados que deixarão de ver apresentações de bandas que gostam por ver que problemáticas de gênero são ignoradas, mesmo quando solicitadas à pauta.

Em sororidade às vítimas da postagem sexista do blog Intervalo Banger, à vítima de Roberto Lagarto, à Paula Seabra Sade e Kamili Picoli e à todas que não se calam. Que esta carta sirva como pulsionador político antes e agora. Demais companheiras e companheiros e eu acreditamos que apoio e espaços livres para agressores primários e secundários e práticas de coerção, de sigilo e sectarismo por parte de quem tem conhecimento dos fatos mas prefere ficar em silêncio impedem a construção sólida de laços cooperativos entre homens e mulheres e pessoas não-binárias. E isso resulta num espaço de homens, feito por homens e para homens. Um modus operandi defeituoso, mas que o patriarcado (e a indisposição de desconstrui-lo) trata de manter firme e forte. Faço o convite à todas e todos para reparação de um silêncio que permanece. Ainda que um silêncio violento e ensurdecedor.

APOIAM ESTA CARTA:
We Are Piano
Anarchist Events Melbourne
Bichano Records
Anarco Ciclistas
Trash No Star
Paula Seabra Sade
Viaduto Ocupado
Crunk Feminist Collective
Fédération Anarchiste
Gayzistas, Feminazis e Travessuras com Capiroto contra a Família
Galo Queer
Devir
Gerações Perdidas
Coletivo Frida Kahlo UFMG
Parte Cinza

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DENÚNCIA 03 – Blog Intervalo Banger sobre a banda SaturninE

Carta-denúncia contra o blog “Intervalo Banger”

Essa carta tem como intuito denunciar e problematizar a misoginia dentro das cenas metal/punk. Porque casos como esses não podem mais passar batido.

No dia 06/08/2014, fazendo uma pesquisa no google sobre a banda SaturninE, nos deparamos com uma resenha tão problemática que daria pra escrever um zine todo sobre ela. Essa resenha estava no blog “intervalo banger” (http://intervalobanger.com/), e logo no título, uma carga pesada de machismo: “SaturninE, ou ‘as mina pira nuns sludge/crust'”. Na primeira linha da resenha, seu autor, “Barão”, destilava toda sua misoginia com frases como “geralmente as bandas de mulheres são muito mais bonitas do que ouvíveis” e “não consigo listar nem 2 bandas de mulheres que ouvirei pra vida inteira”. Esse tipo de resenha veiculada em um blog “grande” sobre a cena metal/punk não é apenas absurda, mas também um desmerecimento por todas as mulheres que fazem parte dessa cena, seja ouvindo, tocando, montando bandas, frequentando os espaços de show e/ou discussão. Portanto, esta carta é um ato político e voltada à todas as cenas metal/punk/crust, afim de problematizar o que isso significa para nós, mulheres.

O post que foi feito no ano de 2012, passou dois anos com o seguinte comentário (de autor desconhecido) no topo das visualizações “bocetudas gostosas do rock”. Nos sentindo profundamente desrespeitadas, questionamos os motivos pelos quais aquela postagem havia sido feita, e aquele comentário permitido lá por dois anos (toda a discussão pode ser vista em prints em anexo). Um dos autores do blog Thiago Vakka (banda Black Coffins e Jupterian) respondeu imediatamente, na página do blog no facebook, com um print do meu comentário e o subtítulo “Olha pai, uma feminista emocionada”. Imediatamente, após essa exposição, várias pessoas iniciaram uma discussão nos comentários. Tanto opiniões horrorosas e tipicamente machistas foram vistas, como questionamentos à postura do blog, a exposição da autora do comentário, e a denúncia, de que não era a primeira vez que a misoginia (dentre outros tipos de ódios disseminados) dava as caras naquele blog. Mediante aos ataques, Thiago Vakka deletou o post misógino sobre a banda Saturnine, o post de exposição com a frase infeliz (sobre a feminista emocionada) no facebook, e se desculpou publica e insatisfatoriamente em sua página. Claramente, depois de perceber o “tiro no pé”, o autor do blog excluiu todas as provas de que alguma coisa havia sido questionada, de que uma discussão e um conflito haviam ocorrido. Uma das desculpas para que o comentário misógino e desrespeitoso permanecesse lá por tanto tempo, foi que os autores do blog não são responsáveis pelo que seus leitores postam. Diante desta, respondemos que eles são absolutamente responsáveis pelo conteúdo visualizado no blog. E diante do argumento de que “o comentário estava ali a muito tempo, temos muitos comentários para moderar” bom… o comentário misógino passou dois anos exposto no blog, passou despercebido? O comentário da “feminista emocionada”, que questionava a postura dos autores do blog, foi exposto e ridicularizado em menos de uma hora após ser feito.

Antes que você pense que está ok criticar uma banda pela “sonoridade”, já adiantamos que não se trata disso, esse não foi o caso. Se trata de criticar uma banda POR SER COMPOSTA POR MULHERES. Usar de argumentos como “são mais bonitas do que ouvíveis” e “não consigo listar duas bandas de mulheres que eu goste” não são críticas ao som da banda, e sim, crítica à produção cultural de mulheres. E isso é misoginia.

Um blog que divulga tantas bandas crust/punk, com letras politizadas, escrever uma resenha desse tipo é inaceitável. A misoginia em quaisquer espaços que desejemos habitar, é inaceitável. A resenha em si, seria inaceitável em qualquer contexto – mas num contexto de um ambiente que se diz disposto a desconstruir, construir, discutir e fazer política é pior ainda. Porque? Porque nós, mulheres, não construímos bandas para agradar os homens. Acreditem, isso não tem nada a ver com vocês. Nós construímos bandas porque nós curtimos som, porque nós podemos e desejamos fazer, para nosso empoderamento, para nos identificarmos e para soltar nossa voz que dificilmente aparece nos espaços públicos, e tem de vencer várias barreiras, combater e desviar armadilhas e sufocamentos para ser ouvida. É com essa situação que nos deparamos agora: Não permitimos que nem nossas bandas, nem nossos corpos, nem nenhum âmbito de nossa produção cultural sejam fetichizadas, nunca nos colocamos a essa disposição e não permitiremos que aconteça. Por aqui, nos espaços que também são nossos, não submeteremos nada de nós a passar por clivo masculino algum.

Sobre a reação dos colaboradores do blog com o comentário de uma mulher que os confrontou: Não, nós não somos feministas emocionadas. Nós somos feministas, nós somos mulheres, e não deixaremos que vocês tomem a cena pra vocês, nós nos indignaremos SIM e responderemos SIM a cada comentário misógino que aparecer. A cena é composta por nós também, e não vamos disputar espaço nenhum, porque ele é nosso por direito.

Carta construída coletivamente por mulheres.

Prints do post no blog Intervalo Banger e da exposição feita no facebook

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Atenção também ao estereótipo preconceituoso de judeu criado pelo blog com uma aparência “humorística”

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DENÚNCIA 04 – Curitiba, Paraná

Olá, venho por meio essa carta aberta expor toda a violência física e psicológica que sofri por mais de 1 ano de namoro com o baixista da banda Traditional Disorder, conhecido como Paulista, o qual frequenta a cena Hardcore de Curitiba – PR.

Conheci o Paulista na faculdade no curso de sociologia e foi lá que iniciamos o namoro, no início nós conversávamos sobre política e principalmente feminismo, pois na época eu era uma pessoa bem ativa e tratava muito desse assunto. Ficamos na semana cultural da faculdade e na outra semana ele me pediu em namoro e assim eu iniciei o maior trauma da minha vida, o qual eu trato com terapia. Após uns 5 ou 6 meses de namoro ele começou a ser extremamente violento, possesivo, não deixava eu conversar com ninguém, tanto que muita gente se afastou de mim e eu me tornei uma pessoa solitária, a qual só ele existia na minha vida, conversava só com ele e saia só com ele, fiquei extremamente dependente. Eu o acompanhava em todos os shows e mesmo lá, só conversava somente com as namorada dos amigos dele, porque segundo ele qualquer cara que me dava oi queria ficar comigo e qualquer menina não gostava de mim, ele dizia que todas elas falavam mal de mim e que não eram confiáveis ou queriam ficar com ele (oh cara feio).

Nos shows eu tinha que ficar sobre a visão dele, pois se ele estivesse tocando e não me visse do palco, eu estava com outro cara e após o show terminar ele me batia, gritava, me chamava de vagabunda e tudo mais. Esse fato ocorreu em público várias vezes, inclusive na frente dos amigos dele, mas é apenas uma briga de casal, o cara empurrar a menina no chão e chuta-la, pois isso ele fez inúmeras vezes, inclusive quando chegávamos na casa dele, ali começava a cobrança, muitas e muitas vezes sai de madrugada da casa dele, correndo sozinha na rua para esperar amanhecer e pegar o meu ônibus. Os vizinhos são provas, tanto que até foi intimidado pelo proprietário da casa que aluga sobre os gritos e xingamento que acontecia todo final de semana, os quais incomodavam os vizinhos.

Eu o via todos os dias na faculdade, estudávamos na mesma sala, então sempre acabávamos juntos. Ele chorava, implorava perdão, dizia que não tinha ninguém na vida dele, que não tinha pai e que só eu podia o ajudar a melhorar.

No show que aconteceu logo após a morte do Chorão, a banda que hoje não existe mais, o qual ele era o baixista ‘’ Till Joey’’ foi chamada para tocar cover em homenagem, no espaço Cult em Curitiba. Foi um grande evento e eu como sempre fui de acompanhante. Como estava lotado, ele não conseguiu me ver do palco, então logo após o show acabar veio me cobrar perguntando aonde eu estava, e logo me empurrou nas escadas e jogou a minha bolsa longe, eu cai no chão, ele me chutou, eu levantei correndo e fui para rua, ele foi atrás e puxou meu cabelo, em seguida apareceu alguns amigos e amigas deles, dizendo para eu não ligar, porque o mesmo estava bêbado.

Outro momento foi em um estúdio de tatuagem que hoje não existe mais, era  no largo da ordem, o tatuador é amigo do Paulista, e o mesmo foi lá visitar e eu fui acompanha-lo. Era época de virada cultural então levamos vinho e cerveja para beber, mas como é de se imaginar, chegou em um momento da noite que o Paulista achou que eu estava dando em cima do seu amigo, e atacou uma cadeira em mim, e me empurrou muito forte que eu cai por cima de todas as coisas e veio para cima de mim, naquele momento pensei que ele iria me matar, porém o seu amigo entrou no meio e os dois começaram a brigar, a dar porrada e se chutar, eu levantei , desci as escadas correndo, e ele foi atrás, o amigo dele também, e começaram a se bater ali mesmo. Eu consegui abrir a porta e ir para rua, e o Paulista foi correndo atrás de mim, e me segurou pelo braço, eu estava chorando não conseguia falar, nesse momento a guarda municipal nos parou e eu só ouvi o Paulista dizer: ‘’ é uma briga de casal’’ , isso foi o que bastava para os guardas darem meia volta, devem ter pensando que éramos dois drogados tatuados. Após esse fato, ficamos umas semanas sem conversar e sim, depois voltamos.

Foi um namoro horrível, que destruiu minha auto estima, eu me sentia feia, sozinha e sem ninguém. Por inúmeras vezes ele me bateu, já jogou uma lata de cerveja nas minhas costas, gritou, disse coisas horríveis. E eu só aceitava, revidava muitas vezes também, mas nunca o suficiente para me libertar, eu achava que ninguém gostava de mim e que se ele ainda estava do meu lado era porque só ele gostava. Me tornei uma pessoa antipática e fechada durante o namoro. Ele já quebrou meu celular, chapinha de cabelo, secador e violão.

Até que passou 1 ano e a faculdade acabou, porém em janeiro eu descobri que estava grávida de 3 meses e me desesperei por completo, não contei para ninguém, apenas chorava. E vocês sabem o que ele fez? Terminou comigo, me deixou sozinha. Eu fiquei muitos dias trancada no quarto chorando e pensando como me matar. Enquanto ele estava fazendo shows por Curitiba, era aplaudido e ficava com outras garotas. Nesse tempo eu mandava muitos e-mails pedindo para ele ficar comigo, porque eu não tinha ninguém e nenhuma resposta era obtida. Até que uma vez eu fui na casa dele na segunda feira, no domingo ele tocou e super se divertiu, encontrei ele dormindo fedendo pinga e me revoltei, comecei a gritar, queria muito mata-lo, mas isso não aconteceu. Depois de horas gritando, chegamos em um senso comum e voltamos a namorar.

Em março eu tive um aborto espontâneo, e precisei fazer uma cirurgia as pressas, tive uma hemorragia bem forte e ali eu me fragilizei psicologicamente por completo.

Mesmo depois de tudo isso, ele continuou me tratando mal, bebia e me falava coisas horríveis, tenho apenas um print de uma conversa no Skype que eu copiei e colei no e-mail, enviei para ele mesmo, pois queria uma explicação sobre aquilo.

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Não tenho muita coisa arquivada, pois houve um momento que ele apagou todos os meus registros salvos no computador. Aliás, ele mexia sempre no meu histórico. Recebi orientações da advogada antes de escrever a carta e estou segura.

Até que após um show do D.C.E ele gritou comigo, me chamou de vagabunda, cretina e rasgou o meu dinheiro para eu não ter como ir embora e me deixou na rua, porém uma pessoa, a qual hoje é o meu melhor amigo, viu parte da situação e resolveu me levar para um lugar seguro e anotou meu telefone e começou a me ligar para saber como eu estava e para sair com ele, nisso me apresentou o Roller Derby, uma liga feminina de patins, e comecei a ser amiga das meninas que treinavam comigo, além disso, esse meu amigo me apresentou várias meninas, as quais hoje são minhas amigas. Diante disso, eu estava me empoderando e cortando os laços com meu agressor, fato que o super incomodou, até mesmo quis me proibir de dar continuidade com minhas amizades, porém eu disse não e foi aí que eu terminei e nunca mais olhei na cara do mesmo.

Hoje posso dizer que estou bem, tenho amigxs novxs e retomei as velhas amizades também, um trabalho maravilhoso, pratico Roller Derby, e me amo principalmente, é claro que carrego comigo alguns traumas, mas estou me livrando disso todos os dias e terá um dia que estarei 100% bem.

Enfim, antes de escrever essa carta eu estava com vergonha, por ter que expor tudo isso e por vocês saberem que eu aceitei todas essa violência por um bom tempo, que não fui capaz de dizer basta logo na primeira vez, mas agora eu não penso isso, porque quem tem que ter vergonha é ele e não eu, o agressor é ele, e somente ele pode se envergonhar.

Agora estou pronta para tudo que pode acontecer depois dessa carta, estou pronta para todos os olhares, para todos os julgamentos, para todos aqueles que dirão que é mentira, para todos aqueles que vão rir, mas principalmente estou pronta para receber amor e carinho por todxs que estão me apoiando e virão a apoiar, estou pronta para todxs aquelxs que me incentivaram a escrever, estarei pronta para lutar por cada uma que assim como eu, se calou, porque não é fácil.

Também deixo um alerta, que se acontecer qualquer coisa ruim comigo foi por consequência do meu desabafo, e saibam que foi ele.

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